A expectativa era grande, o entusiasmo patenteado no olhar, e ao entrarmos na sala do piano era-nos entregue a partitura imaculada da "Missa de Requiem" de Giuseppe Verdi.
Folheamos puerilmente para absorver o aroma das folhas intocadas como no primeiro dia de escola. A tinta da caneta marcava o nosso nome naquele pedacinho de história de capa verde pastel. O peso corresponde à duração de noventa minutos de peça.
Há 150 anos, no dia de hoje, 22 de maio, era pela primeira vez apresentada esta magnífica obra para marcar o primeiro aniversário da morte de Alessandro Manzoni, um poeta e romancista italiano que Verdi admirava profundamente, daí que esta Missa seja por vezes ainda referida como "Requiem de Manzoni".
Nesse dia, o próprio Verdi regeu a obra, com todo o sentimento de homenagem, por aquele que o inspirou a rapidamente concluir este Requiem que inicialmente não lhe era dedicado, mas foi de tal forma impactante a sua influência no compositor, que foi para Manzoni que a rematou e devotou.
Com os seus caracóis fartos grisalhos, barba branca e bigode de pontas, na Igreja de São Marcos em Milão, Verdi fez soar a primeira nota de “Requiem e Kyrie eleison”. Seguiam-se ritmos vigorosos, melodias sublimes e contrastes dramáticos com igual caráter das suas óperas, levando o público a viver as fortes emoções marcadas pelo texto, num ambiente fúnebre de súplica e esperança..."Requiem aeternam dona eis, Domine”, ou seja, "concedei-lhes descanso eterno, ó Senhor".
"Dies Irae" chega com compassos de familiaridade e pulsa no ouvinte interiormente, como que trespassado pelos metais, num sentimento de Juízo Final resultante das marcações de quádruplo fortíssimo nos metais e no coro, fazendo desta, uma das obras musicais de volume mais elevado já produzidas sem o uso de amplificação. E súbito, "Ingemisco" com uma entrada "a capella" do tenor Giuseppe Coppini implorando o perdão do Senhor em tons e ritmos expressivos de esperança. E talvez até a "Madonna" de Lomazzo que lá adorna as seculares paredes, tenha vertido uma lágrima na bela "Lacrimosa", composta por Verdi a partir do dueto "Qui me rendra ce mort? Ô funèbres abîmes!", do quarto ato de sua ópera Don Carlos.
Desde esse dia há 150 anos, foi executada em diversos lugares e países, apresentada sete vezes na Opéra-Comique de Paris, e em Veneza excederam- se na decoração bizantina concebida para a ocasião. Correu mundo e chegou à Igreja da Lapa, está nas mãos do Coro Polifónico da Lapa e do seu Maestro, e diariamente acompanha o Jorge (baixo), cuidadosamente acondicionada na sua mochila, porque levamos sempre connosco aquilo que nos é mais precioso. E é assim que a nossa bagagem vai ficando mais rica sem ficar mais pesada.
Vivyane Tavares





