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Amo, logo existo!

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Vivemos tempos conturbados em que caminhamos dramaticamente para o completo esquecimento de que o dado primordial da condição humana é a referência ao outro. A identidade pessoal do humano só se adquire na concretude da relação, mediante laços de pertença a um meio, a um tecido relacional, a uma comunidade. Com efeito, o ser humano só se realiza e plenifica no «sincero dom de si mesmo» (Gaudium et Spes, 24), no confronto relacional e dialógico com o outro humano diferente.

No entanto, patologias comunitárias assentes num «paradigma de totalidade fechada e excludente»1 impedem a realização de uma comunidade humana capaz de efetivar a dimensão universal da fraternidade. Neste sentido, e segundo o jesuíta francês Michel de Certeau, a constituição da relação comunitária deve reger-se pelo princípio da insuficiência: «“Tu fazes-me falta”. Duas palavras, uma dupla negação, indicam a força desta experiência: “Não sem”. É impossível sem ti»2. Assim estabelecida, a comunidade - enquanto processo de radical exposição ao outro (cf. Esposito) que nos falta, e que se fundamenta no Totalmente Outro - rompe com o individualismo e a autossuficiência absoluta e acentua a interdependência, impondo uma gramática de excesso, de cuidado mútuo.

A comunidade constitui-se, então, como um processo de constante abertura ao exterior, ao que transcende (e ao Transcendente), e que se concretiza no acolhimento incondicional do próximo. Entendido não como sujeito ou categoria social, mas como evento (cf. Paul Ricoeur), o próximo supera a configuração institucional e a história, a proximidade física e as contingências da consciência intencional (cf. Levinas) para articular o universal concreto. A proximidade é a presença do outro que transpõe o tempo e o espaço; não é um estado, mas uma inquietude que nos instiga a estabelecer uma relação com o outro e nos torna responsáveis por ele.

O filósofo judeu Emmanuel Levinas expõe, brilhantemente, esta proximidade do outro pela manifestação do rosto, que não é tão-só o rosto físico, mas aquilo que me interpela e me faz por ele responsável. O outro levinasiano não é empírico nem puramente fenomenológico, mas trata-se de uma presença real que posso olhar e que me olha, no encontro face-a-face. É presença dada como exterioridade, mas que não se limita à sua manifestação exterior, pois é uma exterioridade que vem de uma interioridade.

Mais: para Levinas o rosto na sua própria verticalidade/integridade mostra-se despido, exposto e vulnerável, constituindo-se como abertura à miséria e à pobreza dos outros que estão na mesma condição. Dele advém um imperativo ético que exige justiça e acolhimento: o rosto obriga a não agir com indiferença e a exercer uma responsabilidade ilimitada e intransferível. É o rosto que dá significado à ética da alteridade, desafiando a respeitar, cuidar e promover o outro.

E é no acolhimento amoroso do rosto do outro que se dá o reconhecimento da abertura de dois corações que se geram reciprocamente; é não só a ordo amoris, mas também o amor ordinis. O mandamento do amor ao próximo é, portanto, a «única forma verdadeiramente humana de ser humano»3. Nas palavras de Emmanuel Mounier: «O ato de amor é a mais forte certeza do homem, o “cogito” existencial irrefutável: amo, logo o ser é, e a vida vale (a pena ser vivida)»4.

Rita Santos
Jornalista (CP 6370)
Mestranda em Ciências Religiosas



1 João Manuel Duque, O Próximo e a Comunidade: Breve leitura da Fratelli Tutti, 5.
2 Michel de Certeau, La faiblesse de croire (Paris: Ed. du Seuil, 1987), 112.
3 Duque, O Próximo e a Comunidade: Breve leitura da Fratelli Tutti, 17.
4 Emmanuel Mounier, Le personalism (Paris: Les Presses universitaires de France, 1949), 39.

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Falecimento do Maestro Álvaro Cassuto


Mahler no 10.º aniversário da Orquestra Filarmónica Portuguesa


SOMOS 100 - SOMOS CORO POLIFÓNICO DA LAPA


Entoai Salmos - António Ferreira dos Santos


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Falecimento do Maestro Álvaro Cassuto

07-04-2026

O Coro Polifónico da Lapa manifesta o seu mais profundo pesar pelo falecimento do Maestro Álvaro Cassuto, figura ímpar da música portuguesa, cuja dedicação, sensibilidade e elevação artística marcaram de forma indelével todos aqueles que com ele tiveram o privilégio de privar e trabalhar.

Em 2006, o Coro Polifónico da Lapa teve a honra e o privilégio de colaborar com o Maestro Álvaro Cassuto na apresentação do Requiem de Mozart, em dois concertos memoráveis realizados no Coliseu do Porto e na Igreja de São Domingos, em Lisboa, com o acompanhamento da Orquestra Metropolitana de Lisboa, no âmbito das comemorações dos 250 anos do nascimento do compositor. Essa experiência constituiu um momento de excecional grandeza artística e humana, deixando uma marca inolvidável na história e na vida do nosso coro.

Na sequência dessa colaboração, fomos profundamente tocados pelas palavras que o Maestro dirigiu ao nosso fundador, Cónego Ferreira dos Santos, e a todos os elementos do coro:

"9 de abril de 2006

Meu caro Cónego Ferreira dos Santos,

Não encontro palavras para exprimir a profunda emoção com que escrevo estas linhas!
Não só a qualidade vocal e o profissionalismo do seu magnífico Coro Polifónico, acima de tudo o calor humano que nele se reune e me inspiram, contribuíram para me convencer que o Paraíso não é só um anseio de todo o Ser Humano, mas uma realidade possível no nosso pequeno planeta!
Desde já quero dizer-lhe que tudo farei para voltar a colaborar com o seu Coro. Será não só numa honra, mas acima de tudo um anseio que espero se realize quanto antes!
Entretanto, peço que aceite um forte abraço do seu Amigo e grande Admirador

Álvaro Cassuto

Meus caros Membros do Coro Polifónico da Lapa,
Como já tive a oportunidade de dizer ao vosso talentoso Maestro Filipe Veríssimo, a vossa dedicação, qualidade vocal e, acima de tudo, calor humano, inspiraram-me muito além do que as prosaicas palavras que sei usar conseguem exprimir!
Colaborar convosco foi elevação espiritual e emotiva que me marcou profundamente. Senti-me transportado para um Mundo transcendental a que todos aspiramos e que nos parece inatingível no nosso quotidiano.
Bem-hajam! Deixaram comigo o anseio de voltar a colaborar convosco, que espero se concretize muito em breve!
Entretanto, aceitem os mais efusivos abraços do vosso,

Álvaro Cassuto"

Pouco tempo depois, o Coro foi convidado pelo Maestro para realizar concertos no Algarve, com o Requiem de Domingos Bomtempo, acompanhado pela Orquestra do Algarve. Por motivos de agenda, tal colaboração não se veio a concretizar. Ainda assim, permaneceram para sempre a amizade, o respeito e a estima mútuos. Sempre que o Maestro se deslocava ao norte para dirigir, os elementos do coro faziam questão de marcar presença, como sinal de admiração e reconhecimento.

Neste momento de profunda tristeza, em que fomos surpreendidos pela notícia do seu falecimento, pouco tempo após a realização de três concertos com Requiem de Mozart, não podemos deixar de expressar a nossa mais sincera gratidão por tudo quanto nos deu e pelo inestimável contributo que prestou à música portuguesa.

À família do Maestro Álvaro Cassuto, endereçamos as nossas mais sentidas condolências, associando-nos à sua dor e prestando homenagem à memória de um Homem e de um Músico que jamais será esquecido.


Filipe Veríssimo
FIOMS - Festival Internacional de Órgão e Música Sacra da Área Metropolitana e Diocese do Porto
Founder & Artistic Director
+351916036057

www.fioms.pt


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Mahler no 10.º aniversário da Orquestra Filarmónica Portuguesa

25-03-2026

O concerto comemorativo do 10.º aniversário da Orquestra Filarmónica Portuguesa, realizado a 17 de março na Casa da Música, teve como eixo central a Sinfonia n.º 2 “Ressurreição” de Gustav Mahler, retomando uma obra já marcante em 2024.

Sob a direção de Osvaldo Ferreira, o concerto evidenciou a maturidade artística da orquestra e a sua capacidade de renovar uma partitura de elevada exigência, afirmando-se como um dos momentos mais relevantes da temporada.

As solistas Bárbara Barradas e Cátia Moreso destacaram-se pela sensibilidade e solidez técnica, conduzindo os momentos mais introspectivos da obra, sobretudo no final de grande intensidade.

O Coro Polifónico da Lapa, dirigido por Filipe Veríssimo, e o coro da Academia de Música de Paços de Brandão, sob orientação de Catarina Marinheiro, revelaram coesão e expressividade determinantes para o impacto do desfecho.

Este concerto integra um percurso iniciado em 2024, quando a sinfonia foi apresentada em vários palcos nacionais, consolidando-se como uma experiência musical de forte impacto emocional e escala monumental.

Em 2026, a “Ressurreição” assume um caráter celebrativo, assinalando não só a década da orquestra, mas também o poder transformador da música, numa interpretação renovada que reafirma a atualidade e profundidade da obra de Mahler.


Foto de Capa: @nunoseabra_


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Tradicional Concerto de Natal na Lapa

20-12-2025

O Tradicional Concerto de Natal na Igreja da Lapa, realizado no dia 13 de dezembro, voltou a reunir música, espiritualidade e comunidade num dos momentos mais aguardados da programação cultural natalícia. A Igreja da Lapa proporcionou o cenário ideal para uma noite marcada pelo profundo simbolismo da época.

A interpretação esteve a cargo da Orquestra Filarmónica Portuguesa, sob a direção do maestro Osvaldo Ferreira, que conduziu o concerto com grande sensibilidade musical. O elenco de solistas reuniu as vozes de Alexandra Quinta e Costa (soprano), Ella Feldmeier (mezzo-soprano), Marco Alves dos Santos (tenor) e Hugo Oliveira (baixo), cujas interpretações se destacaram pela expressividade e perfeita integração com a orquestra e o coro.

O núcleo central do repertório foi a Cantata de Natal (1ª parte - Cantatas I e II) de Johann Sebastian Bach, uma das obras mais emblemáticas do período barroco e profundamente ligada à celebração litúrgica do Natal. Estruturada em várias cantatas destinadas aos dias festivos entre o Natal e a Epifania, a obra combina coros de grande solenidade com árias e recitativos de intensa carga espiritual. A música de Bach, simultaneamente majestosa e intimista, convidou o público a uma vivência profunda do mistério do Natal, num diálogo constante entre texto, música e fé.

O Coro Polifónico da Lapa, preparado e dirigido pelo maestro Filipe Veríssimo, teve um papel determinante na construção sonora da obra, revelando uma sonoridade que enriqueceu todo o programa.

O concerto culminou com o tema Adeste Fideles, tradicionalmente atribuído a D. João IV, momento particularmente emotivo que contou com a participação do público. Este gesto simbólico transformou a interpretação final num verdadeiro momento de comunhão, unindo intérpretes e ouvintes num cântico coletivo de celebração e esperança.

A noite encerrou sob fortes aplausos e num ambiente de grande emoção, reafirmando o Concerto de Natal na Igreja da Lapa como uma tradição viva, onde a música se alia ao espírito natalício e à partilha comunitária.


Foto de Capa: @pedro.couto


Excerto do Tradicional Concerto de Natal na Igreja da Lapa
Som gravado ao vivo pela Orquestra Filarmónica Portuguesa


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